• Autismo na Prática - Maternidade Atípica - Relatos Pessoais

    O primeiro sinal de autismo na minha filha

    A maternidade chegou de surpresa pra mim, justamente em um momento de pausa na minha vida profissional e em meio ao caos da pandemia. A alegria do maternidade inesperada veio acompanhada de muitos desafios, que só mais tarde eu iria entender. Neste relato, compartilho como foi o primeiro sinal que, na época, eu não imaginava estar relacionado ao autismo da minha filha.

    A gravidez inesperada aos 43

    Foto de Manu B na Unsplash

    Eu já estava com 43 anos, casada há mais de 10 anos e nunca havia engravidado anteriormente. No entanto, não havia diagnóstico de infertilidade, por isso eu simplesmente aceitei que não seria mãe e estava tudo bem. Mas eu engravidei, e isso aconteceu quando nem imaginava que seria mais possível. Foi um susto pra mim!

    Tinha acabado de sair de um emprego que já não fazia sentido, queria um ano sabático para descansar e reorganizar minha vida. Mas, veio a pandemia e com ela o isolamento forçado que coincidiu com o início dos sintomas: enjoo, cansaço e mal-estar. E o teste confirmou: eu estava grávida!

    A princípio senti muito medo: pela idade que eu estava, pela pandemia, por ter saído do meu emprego… Era tanta coisa passando pela minha cabeça, foi um mix de sensações! Apesar dos medos, a gravidez correu bem, tive apenas diabetes gestacional, que consegui controlar com acompanhamento.

    Sentimento de algo errado

    Sou mãe de primeira viagem, tudo foi novidade para mim. Eu não entendia nada de bebês pois nunca havia cuidado de um antes de ter minha filha. Sempre soube que não era uma tarefa fácil cuidar de filhos, mas o problema era que estava difícil demais. Desde o início senti que havia algo fora do comum, pois minha filha não dormia.

    No hospital, ainda recém-nascida, eu me peguei olhando para ela e pensando: “E agora? Ela ainda está acordada… e eu, quando durmo?”

    Em casa, a situação não mudou. Sempre foi uma dificuldade enorme para ela dormir, além disso ela tinha muitos despertares noturnos. Isso acabou comigo, não fazia ideia do quanto a privação do sono pode fazer mal à alguém. E durante o dia era a mesma coisa, nunca dormia por mais de 1 hora. Lembro que eu mal conseguia comer. Eu tirava cochilos sentada no sofá, quando ela cochilava no meu colo. Esse era o momento que eu dormia, além de pouco, muito mal. Comprei um sling para poder, pelo menos, ter as mãos livres. Ali ela dormia um pouco melhor, ficava mais calma talvez por me sentir bem pertinho, mas ainda era um sono de curta duração. Além do sling, tentei diversas coisas, por exemplo: chá de camomila, homeopatia, rotina do sono e até simpatia. Nada adiantou.

    A exaustão sem rede de apoio

    Foto de Ana Curcan na Unsplash

    A famosa “rotina do sono” foi implementada desde que ela chegou em casa. Banho às 18h, mamada, casa escura, silêncio e a caminhada pela casa balançando a bebê. No entanto, apesar de toda a rotina certinha, ela dormia por volta das 21h30, nunca com facilidade. Esse horário eu já estava exausta.

    Com 15 dias ela perdeu peso. A recomendação do pediatra foi complementar com fórmula, sem parar de amamentar. Ela mamava no peito praticamente o dia todo. Eu pensava: será que é assim mesmo? Cheguei a ouvir que ela não dormia porque estava com fome, que o meu leite não sustentava, ou seja, a culpa ainda era minha!!! Mesmo depois de começar com a fórmula, ela continuou do mesmo jeito, nada mudou.

    Eu nunca tive rede de apoio e confesso que invejo quem tem, porque isso pesa muito, faz uma diferença enorme na vida de uma mãe, seja típica ou atípica. Cuidava da minha filha sozinha o dia todo enquanto meu marido estava trabalhando, minha filha não dormia bem e consequentemente eu também não, isso deixava ela bem agitada. A privação do sono foi uma das piores coisas que a maternidade me trouxe. Quando eu desabafava com alguém, recebia respostas prontas, comparações, julgamentos. Nunca acolhimento. Ouvia coisas do tipo: é assim mesmo, meu filho só foi dormir com 10 anos… eu passava a noite acordada... ou: criança é desse jeito mesmo, não dorme… A dor do outro parecia sempre maior que a minha, mais legítima. Com o tempo, parei de falar. Chorava muito e muitas vezes escondida até do meu marido.

    Além disso, eu ainda me sentia mal, culpada por me sentir cansada, por reclamar “sem motivo”, afinal, eu tinha um filha perfeita, linda, porque estava reclamando? Além da exaustão que essa rotina me proporcionava, a culpa também me consumia.

    Instinto materno

    Jamais imaginei que essa agitação toda da minha filha poderia indicar um dos sinais de autismo. Eu só percebia que algo não estava normal. E era um pressentimento constante e confuso, não sabia ao certo o motivo para isso acontecer. Na época, eu não tinha as respostas, só tinha o cansaço, o medo e a intuição de que algo estava diferente, que não ia bem. Hoje, olhando para trás, depois de tudo o que passei e aprendi, vejo como minha filha já dava sinais desde os primeiros dias de vida.

    Ainda levou um tempo até o diagnóstico chegar, mas foi assim que o primeiro sinal do autismo se manifestou.

    Espero que esse texto possa ajudar outras mães que, assim como eu, não encontraram acolhimento quando mais precisaram.