Eu sempre achei que ser mãe não é uma tarefa fácil, mas ser mãe de uma criança atípica… Meu Deus, como é difícil! Não que a dor seja maior que as dores de outras mães, isso não é uma competição e não quero minimizar a dor de ninguém, pois cada mãe tem a sua realidade e seus problemas, mas a verdade é que ser mãe atípica é exaustivo. E muito! Não é só fisicamente, mentalmente também.
Nesse post quero falar sobre o impacto emocional da maternidade atípica, a solidão, o sentimento de culpa, do luto, cansaço, mas também da esperança que faz parte do dia a dia. Cuidar de uma criança atípica exige muito, se a mãe não estiver bem, a criança também não estará. E antes de falar sobre como encontrei caminhos para cuidar de mim, quero compartilhar um pouco da rotina que ninguém vê.
A rotina que ninguém vê

Cuidar da casa, do marido, trabalhar, levar a criança para escola, levar nas terapias, levar ao pediatra, neuropediatra, etc. Não ter um tempo para se cuidar como fazer uma unha, cuidar do cabelo, não poder dormir até a hora que sentir vontade ou poder dormir quando se sentir muito cansada, ler um livro, fazer um curso, ver um vídeo ou assistir uma série, ou simplesmente não fazer nada.A mãe atípica ainda tem que lidar com crises frequentes, seletividade alimentar, rigidez cognitiva, distúrbios do sono, frustrações de ambas as partes, estudar sobre o autismo… a lista é grande.
Ser mãe de uma criança autista é como carregar o mundo nas costas, muitas vezes sozinha, mesmo não sendo mãe solo. Eu tive que abrir mão de muitas coisas, principalmente da vida social. Quantas vezes deixei de ir em aniversários, saí mais cedo de vários lugares que fomos conhecer, evitei alguns passeios… tudo por causa da minha filha.
Sinto que, de repente, minha vida tomou um rumo para o qual eu não estava preparada. Não tive tempo de processar, apenas precisei seguir em frente. A preocupação com o futuro, a solidão e o medo fazem parte da minha vida. Tenho que estar alerta o tempo todo.
Mas o que acho pior é essa romantização da mãe guerreira. As pessoas te olham e acham você uma pessoa forte, mãezona, maravilhosa, que dá conta de tudo…, mas por dentro ninguém sabe como é, você está destruída, na maioria das vezes sozinha, carregando o mundo nas costas em silêncio por não ter ninguém para desabafar ou te acolher, sem uma rede de apoio. É uma dor horrível.
Existe também um luto silencioso, que quase ninguém fala. Não é um luto pelo filho, mas pelas expectativas que eu tinha sobre a maternidade, sobre a vida, sobre minha filha, sobre mim mesma. É um sentimento difícil de carregar, mas acho que faz parte do processo.
Culpa

Eu já estava sem trabalhar quando minha filha nasceu, ficar em casa 24 horas apenas cuidando de uma bebê foi criando um enorme vazio dentro de mim, diversas vezes me senti inútil. Eu pensava: vai ser sempre assim? Exclusividade para minha filha 100% do tempo?
E aí vinha a culpa, é como se eu não tivesse o direito de pensar em mim, como se eu estivesse sendo egoísta. Eu não conseguia cuidar de mim como gostaria, mal conseguia comer, imagina me arrumar. Eu não saía de casa, então não era importante estar sempre arrumada, mas devido a demanda que eu tinha com minha filha, cada vez mais eu fui deixando isso de lado. E me sentia mal por isso.
Tudo isso gerava culpa: por sentir cansaço, por querer um tempo só pra mim, por não conseguir dar conta de tudo, por não ser uma mãe perfeita… A culpa me acompanhava o tempo todo, mesmo quando eu dava o meu melhor.
Quem cuida da mãe?
A verdade é que, enquanto eu cuidava da casa, da criança e do marido, eu esquecia de mim. E quando percebi, já estava no limite.
Quando estamos com alguma dor física, uma mal-estar ou suspeita de alguma doença, procuramos um hospital, um médico e buscamos resolver o problema. Mas e quando a dor é interna? Muitas vezes não entendemos o que estamos sentindo e é como não ter de onde tirar forças para continuar. Normalmente não procuramos ajuda e isso é errado, porque a saúde mental também merece atenção. Ignorar isso, achar que vai passar, só prolonga o sofrimento. Demorei para entender isso, mas antes tarde do que nunca.
Com o tempo eu fui entendendo que eu precisava me priorizar, me valorizar, fazer algo por mim, algo que eu gostasse, pois só desse jeito eu iria ficar bem e ter forças para continuar. Mas e o tempo? Quando eu faria algo por mim? E o que eu faria por mim? A vida era (e ainda é) muito corrida. Hoje eu me escolho, mesmo que seja fazer poucas coisas ou por pouco tempo. Muitas vezes a preguiça e o cansaço me vencem, mas estabeleci pequenas metas pois assim consigo cumprir e fica mais fácil para continuar.
O que eu fiz por mim
Já disse em outro post que quando minha filha tinha 4 meses eu comecei sessões de terapia online. Eu já estava mal e nem tinha suspeita do diagnóstico. Acho que foi a melhor coisa que eu pude fazer por mim. Foi o primeiro passo, eu precisava ser acolhida e receber esse acolhimento me ajudou muito.
Quando minha filha tinha 1 ano e 7 meses, recebi uma proposta de emprego. Ela ainda não tinha recebido o diagnóstico, mas minha vida já era uma loucura e sair de casa para trabalhar me ajudou a não enlouquecer. Fui com medo, muito insegura, me sentindo culpada por deixar minha filha na escola em período integral, mas eu fui, aceitei a proposta de trabalho. Voltar ao trabalho me trouxe um respiro, mas também um turbilhão de sentimentos. Era libertador e doloroso ao mesmo tempo. Acho que se essa proposta de emprego chegasse depois do diagnóstico, provavelmente eu não teria aceitado. Teria renunciado à minha vida profissional para cuidar dela.
Recentemente comecei ir à academia, depois de 5 anos entendi que o exercício ajuda mais a minha cabeça do que meu corpo. É uma forma de sair de casa também, para espairecer. Assisto um filme como se fosse uma série, demoro uma semana para concluir, e me sinto vitoriosa quando consigo terminar. Faço o mesmo com livros, tento ler pelo menos 10 minutos, nem sempre consigo, mas estou no caminho para isso.
Aprendi a celebrar o que antes eu nem percebia. No meio dessa loucura que é a vida da mãe atípica, existem momentos de luz. Cada pequena conquista dela ou minha, eu vejo que estamos avançando, mesmo devagar.
O que você fez por você hoje?

Um filho sempre estará em primeiro lugar, sempre será prioridade, pelo menos pra mim, é assim que eu penso, mas, se você não começar a fazer algo por você, sempre ficará para depois e o tempo passa, não volta. Eu demorei 5 anos para entender que eu precisava de um tempo para mim, para cuidar de mim, espero que você não demore tanto tempo.
Se você se identificou com o meu relato, não pense muito, se escolha, dê prioridade a você, fique bem para poder ajudar seu filho ou sua filha. Começar com pequenas coisas já farão diferença, tomar um banho mais demorado, ter 10 minutos de silêncio, comer sem pressa, fazer algo que te dê prazer como ver um filme, ler um livro ou fazer algum hobby. Tenha metas pequenas e que sejam possíveis de alcançar, pois dessa forma fica mais difícil desistir.
Com a alta demanda na vida de uma mãe atípica, normalmente não começamos a fazer nada por nós, mas acho que devemos definir as prioridades, temos que começar a fazer e criar o hábito, depois as outras coisas se ajeitam.
Além disso, acho que também é preciso ter esperança e reconhecer os pequenos avanços, ficar feliz por pequenas conquistas, sejam suas ou do seu filho.
Ser mãe atípica é isso, é intenso, mas você também merece existir para além da maternidade. E precisa entender que isso não é egoísmo, é sobrevivência.





