• Maternidade Atípica - Relatos Pessoais

    O balanço dos 5 anos mais intensos da minha vida

    Minha filha fez aniversário recentemente. 5 anos! Como tempo passou rápido! Nem consigo acreditar. Tem horas que eu penso em tudo o que vivi com ela, nas alegrias e nos desafios, o quanto chorei, mas o quanto também sorri. Parece que minha vida só existiu depois dela, não consigo lembrar como era minha vida antes dela.

    O final de ano se aproxima e costumo fazer uma reflexão de como foi o ano e planejar o próximo ano. Então hoje eu quero refletir sobre esses 5 anos, porque foram intensos.

    Do nascimento aos 12 meses

    Sem dúvida foi o período mais difícil. Adaptação de todo lado, pra mim, para meu marido e até mesmo para minha filha.

    Com 15 dias, ela tinha perdido peso e o pediatra pediu para entrar com a fórmula, como complemento. Mamava no peito e depois eu dava a fórmula.

    Pra ajudar, ela não dormia desde que chegou do hospital, como já mencionei em post anteriores. Era muito agitada, não parava quieta. Nunca dormiu uma noite inteira nesse primeiro ano. E nem eu, estava muito mal, saúde mental não existia, me sentia um zumbi. Quando minha filha tinha 4 meses eu comecei fazer terapia e tenho certeza de que minha terapeuta me salvou.

    Nos primeiros 30 dias de banho foi só choro, depois parou, achava que nunca iria se acostumar. Não sei se já existia uma sensibilidade e eu não tinha conhecimento.

    Eu acompanhava o desenvolvimento dela por um app e teoricamente estava indo tudo bem: rolar, fazer a esfinge, sentar, engatinhar… com 1 ano estava dando seus primeiros passinhos, porém a fala estava devagar. Devagar não, travada mesmo, falava só mamã. Balbuciar palavras não existiu.

    Introdução alimentar foi terrível. Aceitava bem as frutas, mas comida… diversas tentativas de tudo que foi jeito e nada dava certo, até que comecei bater tudo no liquidificador, fazia umas papinhas bem nutritivas e assim foi por um bom tempo. Dizem que não pode comida liquidificada, mas era o que ela aceitava e cada um tem que fazer o que for melhor para seu filho, se adaptar como for possível.

    Eu mal conseguia me alimentar ou fazer algo em casa, era só o básico mesmo, porque minha filha não tirava cochilos, era coisa de 10 a 20 minutos, e era muito grudada em mim, queria a mamãe o tempo todo.

    Tudo isso em meio a pandemia. Nunca tive rede de apoio e ainda vivia uma época que mal podia sair de casa. Visitas eram raras, sempre da família do marido. Então não tive muito como observar o socializar, como agia com outras pessoas, porque ela sempre estava comigo.

    De 1 a 2 anos

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    Já estava enlouquecendo e resolvi colocar ela na escola, meio período, para poder fazer alguma coisa em casa (exceto descansar, isso nem pensar, não dava tempo) e também para ela poder ver outras crianças. A adaptação na escola foi boa, mas sempre muito apegada com a professora, o que muitas vezes comentavam isso comigo e diziam que eu dava muito colo (a culpa era minha hahahaha).

    Com 1 ano e 7 meses tirei ela do peito, ficou só com a fórmula. Claro que foi de uma forma bem gradual, diminuindo aos poucos, até que mamava só para dormir e depois tirei. Eu achava que o grude iriar acabar, que talvez ela era muito apegada por mamar no peito. Mas não, depois continuou tudo igual. Como já mencionei nesse post, autista são mais apegados a mãe.

    Depois de 6 meses, eu recebi uma oferta de emprego e aceitei. Fiquei com muito medo de colocar ela na escola o dia todo, mas eu pensava que era isso que o mundo fazia, alguns bebês já estavam na escolinha a partir dos 6 meses para que a mãe voltasse ao trabalho, então achava que não seria um problema. Errei! Mas até aí eu não tinha desconfiança que ela era autista.

    De certa forma foi bom pra minha saúde mental, para poder sair um pouco de casa, me sentir útil, porque eu só era mãe, em tempo integral, isso estava acabando comigo. Eu me sentia culpada de me sentir mal, pois eu amava e amo muito minha filha, não entendia por que eu não estava bem, não entendia que aquela rotina exaustiva me deixava mal. 

    Na escola em tempo integral: ela não comia bem, se isolava muito, não brincava com outras crianças, não dormia e ficava irritada muito fácil. E mesmo passando tudo isso na escola, chegava em casa e dormia tarde com muitos despertares noturnos.

    Minha preocupação começou a aumentar cada vez mais.

    Dos 2 aos 3 anos

    Também foi intenso. Começamos o ano com o início frustrado do desfralde na escola. Continuava sem falar, percebia que ela entendia tudo, porém não respondia nada, não tinha iniciativa, só apontava.

    Socialização ainda não existia, pelo contrário das outras crianças da mesma idade, ela sempre fugia de outras crianças.

    Dormindo tarde, dormindo mal, vários despertares noturnos e o neuro passou melatonina. Ajudava a induzir o sono, só isso, começou dormir mais cedo mas o resto continuou igual.

    Sem comer direito ainda. Frutas sempre foi bem, mas comida… chegamos em um ponto que só aceitava arroz e tomate.

    Comecei a buscar ajuda, já que o pediatra e neuropediatra diziam que estava tudo bem, que ela iria se desenvolver. O autismo feminino é diferente e acho que isso ajudou a atrasar o diagnóstico.

    Enfim passamos com a neuropsicóloga. Depois de 3 meses em um processo de avaliação e faltando alguns dias para ela completar 3 anos, a terrível notícia veio: sua filha é autista.

    Dos 3 aos 4 anos

    Marcado pelo início das terapias. As sessões eram com estagiárias, nunca conheci uma supervisora, não entendia nada então eu achava que tudo estava indo muito bem. Não sabia o que cobrar ou acompanhar. Resultado: muito estresse, muito choro, pouca evolução no desenvolvimento.

    Com o laudo em mãos, o neuro iniciou a medicação e suspendeu a melatonina. Finalmente dormiu uma noite inteira. E eu também! Os ajustes das doses da medicação eram frequentes, pois sempre voltavam os despertares noturnos. Colaborou com o sono, porém em seu comportamento tudo continuava igual. Eu na minha falta de conhecimento, achava que era assim mesmo, não tinha muito o que fazer. Mas estava errada.

    Muita coisa errada na escola, falta de preparo das pessoas da escola, falta de inclusão, de adaptação para lidar com minha filha, falta de empatia. Não via evolução na escola também, ela estava lá desde 1 ano e parecia que as coisas só pioravam, ela não me contava o que acontecia, mas percebia que ela não gostava da escola e de tudo que envolviam a escola.

    Comecei a me informar sobre o autismo, mas ainda de forma muito superficial, porém já era um começo.

    Dos 4 aos 5 anos

    Comprei alguns livros e cursos, mas não devorei o assunto, minha rotina ainda era muito cansativa, estressante, e eu não conseguia me dedicar tanto deveria. Mesmo assim, esse pouco me ajudou muito, abriu minha mente.

    Trocamos de clínica. Início de nova avaliação e início de sessões com terapeutas formados em uma clínica multidisciplinar. Fez toda a diferença. Ela chegou na clínica prestes a completar 4 anos, falava muito pouco, a frase dela tinha 2 palavras. Qualquer pergunta era respondida com uma palavra: sim ou não. Hoje com 5 anos eu vejo a diferença. Fala muita coisa errada que está sendo trabalhada com a fono, porém fala tudo, já consegue se expressar.

    Outra mudança muito importante foi a troca de escola. Fiz isso com muito medo, mas foi a melhor coisa que eu fiz. Tirei da escola particular, onde ficava integral e foi para uma escola da prefeitura por meio período. Diferença gritante, pessoas na escola preparadas para a inclusão, não só a professora. Desenvolvimento foi enorme, a escola a ajudou em tantas coisas, uma pena não ter trocado de escola antes.

    Com 4 anos achei que ela estava preparada para começar na natação e quase para completar 5 anos também iniciou o judô. Atividade física é muito importante. E ela ama!

    Meus planos para o próximo ano

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    Foram cinco anos intensos, desafiadores e transformadores. Agora entro no próximo ano com mais clareza e sabendo para onde ir.

    Esse novo ano será de continuidade: escola, terapias, atividades físicas e muito estudo da minha parte. Ser mãe de autista exige um aprendizado constante. Não espero que tudo seja fácil, mas espero estar mais preparada para lidar com o que vier.

    O que posso garantir é que vou continuar buscando o melhor para minha filha e para mim também!

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    Minha filha é autista. E agora?

    Minha cabeça deu um nó! O que é autismo exatamente? O que eu faço agora? Será que ela vai falar um dia? Será que vai se desenvolver? Terá amigas? Ela vai depender de mim pra sempre? Será feliz?

    O diagnóstico veio e com ele, essas e muitas outras dúvidas. Aqui vou contar como foi após receber o diagnóstico.

    Alívio depois do diagnóstico

    Depois que passa a fase do luto, você entende que receber o diagnóstico chega a ser um alívio, por incrível que pareça! Claro que ninguém fica feliz em descobrir que tem um filho autista, mas saber disso te ajuda a entender os comportamentos da criança e te direciona ao que deve ser feito, você não perde tempo tentando entender o que tem de errado, passa a ter foco, objetivo e vai em busca de como ajudar seu filho.

    Mesmo sem entender o que era o TEA, as primeiras coisas que eu fiz foram: agendei uma consulta com o neuro (liguei para o mesmo que já atendia minha filha) e liguei nas clínicas disponíveis no convênio para agendar as terapias.

    Isso eu tinha entendido: as terapias eram urgentes. Fico triste quando penso em quanto demorou para chegar ao diagnóstico, porque se eu tivesse encontrado profissionais mais preparados antes, que estivessem atentos às minhas queixas e preocupações, o laudo teria vindo mais cedo as terapias teriam começado bem antes.

    Consulta com o Neuro

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    Com o laudo em mãos, fomos no neuro. Ela começou com esse neuro por indicação do pediatra, porque ela não dormia. Ele suspendeu a melatonina, que minha filha tomava devido a dificuldade com o sono, e receitou neuleptil.

    Minha pequena estava começando a tomar um remédio forte com apenas 3 anos, mas não me arrependo. Isso assustou, mas sabia que foi para o bem dela.

    Esse remédio fez minha filha dormir a noite toda. Ela acordava cedo, 6h já estava de pé e até hoje continua assim, mas foi uma benção na minha vida, porque finalmente, depois de alguns anos, EU pude dormir uma noite inteira.

    Confesso que eu nem hesitei em dar a medicação. Se você pesquisar vai encontrar muita gente contra medicação, principalmente quando a criança é muito nova. Há quem diga que a criança ficará dopada, perderá o brilho, que você não saberá como é a criança realmente… Enfim, eu não concordo com isso. O importante é ter o acompanhamento de um bom neuropediatra. E ele precisa ser acessível, assim como o pediatra. Em outro post vou contar sobre a importância de escolher um bom médico, como foi a troca do neuropediatra e a troca da medicação.

    As primeiras sessões de terapia

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    Tanto o neuropediatra quanto a neuropsicóloga recomendaram 20 horas de terapias semanais. Vinte horas!!! Eu trabalhava, meu marido também, minha filha estava na escola, como assim ela tem que fazer tudo isso de terapias? Que horas? Ah! Esqueci de mencionar a receita básica do bolo: as terapias deveriam ser divididas entre fonoaudióloga, terapia ocupacional (TO) e psicóloga.

    Conseguir vaga é difícil porque quem começa a terapia não tem uma data para terminar, não surge uma vaga assim rápido, então quando você liga em alguma clínica e consegue um horário, fica feliz da vida. Eu fiquei! Não sabia como ia funcionar, se as terapeutas eram boas, se a clínica era boa… Eu não tinha nenhuma referência e muito menos conhecimento. Consegui as sessões em 2 clínicas, próximas de casa. Achei que estava tudo resolvido, agora era só levar ela nas terapias.

    Mas infelizmente não funciona desse jeito. E por um tempo eu achei que tinha encontrado a solução para os meus problemas. Minha filha estava na terapia e eu não precisava fazer mais nada. Tudo iria melhorar.

    Claro que não foi bem assim… No começo eu realmente achei que tudo estava indo bem, comecei a ver evolução da minha filha, mas depois de um tempo, quando comecei a entender um pouco mais sobre esse mundo que fui inserida, percebi muita coisa errada, começando pelas profissionais que atendiam minha filha, todas estagiárias e sem supervisão.

    Depois de 1 ano eu estava mais consciente e muito insatisfeita com o resultado das terapias, então troquei de clínica. Foi a melhor coisa que fiz.

    Conhecimento é poder

    Receber o diagnóstico foi horrível, porém libertador. Respondeu muitas perguntas, eu finalmente consegui entender tudo o que estava acontecendo com minha filha. A partir daí procurei tratamento e buscar sempre o melhor para ajudar em seu desenvolvimento. Além e buscar informação.

    Acredito que é muito diferente tudo o que vemos sobre o autismo e o que vivemos no autismo no dia a dia, por isso, nós, mães, temos que entender e sempre buscar conhecimento para poder ajudar nossas crianças da melhor maneira possível. Eu já assisti muitos vídeos, comprei alguns cursos, muitos livros e continuo na busca por informação.

    A falta de tempo em nossa rotina pesada, não deixa a gente se informar do jeito que seria o ideal. A mulher sempre tem muita coisa pra fazer, não existe descanso. Algumas vezes eu só quero dormir um pouquinho quando tem um “tempinho” disponível. Na verdade, eu adoraria assistir esse monte de séries e filmes disponíveis em tantos streamings que existem, mas eu priorizo me informar sobre o autismo e tudo o que envolve esse tema, mesmo que seja em doses homeopáticas.

    O conhecimento nos ajuda muito. Não basta levar a criança nas sessões e cruzar os braços esperando que um milagre aconteça. Não vai ser dessa forma. O que faz diferença é a informação. É preciso saber quando as sessões não estão rendendo, quando o médico ou os terapeutas não são bons o suficiente, entender o que eles falam, saber quando o remédio já não está mais ajudando ou se o efeito do remédio poderia ser melhor… tem tanto a aprender…

    E quem vai se informar? A mãe. Lógico!!!

    A jornada da maternidade atípica não é fácil, tem muitos altos e baixos, mas com conhecimento podemos ajudar nossos filhos e nos ajudar. Tenho a certeza de que estou fazendo o melhor que posso para minha filha e espero que você também esteja no mesmo caminho.