• Autismo na Prática - Maternidade Atípica - Relatos Pessoais

    A verdade sobre ser mãe atípica

    Eu sempre achei que ser mãe não é uma tarefa fácil, mas ser mãe de uma criança atípica… Meu Deus, como é difícil! Não que a dor seja maior que as dores de outras mães, isso não é uma competição e não quero minimizar a dor de ninguém, pois cada mãe tem a sua realidade e seus problemas, mas a verdade é que ser mãe atípica é exaustivo. E muito! Não é só fisicamente, mentalmente também.

    Nesse post quero falar sobre o impacto emocional da maternidade atípica, a solidão, o sentimento de culpa, do luto, cansaço, mas também da esperança que faz parte do dia a dia. Cuidar de uma criança atípica exige muito, se a mãe não estiver bem, a criança também não estará. E antes de falar sobre como encontrei caminhos para cuidar de mim, quero compartilhar um pouco da rotina que ninguém vê.

    A rotina que ninguém vê

    Mãe cansada, com a casa bagunça e a criança brincando, brinquedos espalhados por todos os lados
    Imagem ilustrativa gerada por IA

    Cuidar da casa, do marido, trabalhar, levar a criança para escola, levar nas terapias, levar ao pediatra, neuropediatra, etc. Não ter um tempo para se cuidar como fazer uma unha, cuidar do cabelo, não poder dormir até a hora que sentir vontade ou poder dormir quando se sentir muito cansada, ler um livro, fazer um curso, ver um vídeo ou assistir uma série, ou simplesmente não fazer nada.A mãe atípica ainda tem que lidar com crises frequentes, seletividade alimentar, rigidez cognitiva, distúrbios do sono, frustrações de ambas as partes, estudar sobre o autismo… a lista é grande.

    Ser mãe de uma criança autista é como carregar o mundo nas costas, muitas vezes sozinha, mesmo não sendo mãe solo. Eu tive que abrir mão de muitas coisas, principalmente da vida social. Quantas vezes deixei de ir em aniversários, saí mais cedo de vários lugares que fomos conhecer, evitei alguns passeios… tudo por causa da minha filha.

    Sinto que, de repente, minha vida tomou um rumo para o qual eu não estava preparada. Não tive tempo de processar, apenas precisei seguir em frente. A preocupação com o futuro, a solidão e o medo fazem parte da minha vida. Tenho que estar alerta o tempo todo.

    Mas o que acho pior é essa romantização da mãe guerreira. As pessoas te olham e acham você uma pessoa forte, mãezona, maravilhosa, que dá conta de tudo…, mas por dentro ninguém sabe como é, você está destruída, na maioria das vezes sozinha, carregando o mundo nas costas em silêncio por não ter ninguém para desabafar ou te acolher, sem uma rede de apoio. É uma dor horrível.

    Existe também um luto silencioso, que quase ninguém fala. Não é um luto pelo filho, mas pelas expectativas que eu tinha sobre a maternidade, sobre a vida, sobre minha filha, sobre mim mesma. É um sentimento difícil de carregar, mas acho que faz parte do processo.

    Culpa

    Imagem ilustrativa gerada por IA

    Eu já estava sem trabalhar quando minha filha nasceu, ficar em casa 24 horas apenas cuidando de uma bebê foi criando um enorme vazio dentro de mim, diversas vezes me senti inútil. Eu pensava: vai ser sempre assim? Exclusividade para minha filha 100% do tempo?

    E aí vinha a culpa, é como se eu não tivesse o direito de pensar em mim, como se eu estivesse sendo egoísta. Eu não conseguia cuidar de mim como gostaria, mal conseguia comer, imagina me arrumar. Eu não saía de casa, então não era importante estar sempre arrumada, mas devido a demanda que eu tinha com minha filha, cada vez mais eu fui deixando isso de lado. E me sentia mal por isso.

    Tudo isso gerava culpa: por sentir cansaço, por querer um tempo só pra mim, por não conseguir dar conta de tudo, por não ser uma mãe perfeita… A culpa me acompanhava o tempo todo, mesmo quando eu dava o meu melhor.

    Quem cuida da mãe?

    A verdade é que, enquanto eu cuidava da casa, da criança e do marido, eu esquecia de mim. E quando percebi, já estava no limite.

    Quando estamos com alguma dor física, uma mal-estar ou suspeita de alguma doença, procuramos um hospital, um médico e buscamos resolver o problema. Mas e quando a dor é interna? Muitas vezes não entendemos o que estamos sentindo e é como não ter de onde tirar forças para continuar. Normalmente não procuramos ajuda e isso é errado, porque a saúde mental também merece atenção. Ignorar isso, achar que vai passar, só prolonga o sofrimento. Demorei para entender isso, mas antes tarde do que nunca.

    Com o tempo eu fui entendendo que eu precisava me priorizar, me valorizar, fazer algo por mim, algo que eu gostasse, pois só desse jeito eu iria ficar bem e ter forças para continuar. Mas e o tempo? Quando eu faria algo por mim? E o que eu faria por mim? A vida era (e ainda é) muito corrida. Hoje eu me escolho, mesmo que seja fazer poucas coisas ou por pouco tempo. Muitas vezes a preguiça e o cansaço me vencem, mas estabeleci pequenas metas pois assim consigo cumprir e fica mais fácil para continuar.

    O que eu fiz por mim

    Já disse em outro post que quando minha filha tinha 4 meses eu comecei sessões de terapia online. Eu já estava mal e nem tinha suspeita do diagnóstico. Acho que foi a melhor coisa que eu pude fazer por mim. Foi o primeiro passo, eu precisava ser acolhida e receber esse acolhimento me ajudou muito.

    Quando minha filha tinha 1 ano e 7 meses, recebi uma proposta de emprego. Ela ainda não tinha recebido o diagnóstico, mas minha vida já era uma loucura e sair de casa para trabalhar me ajudou a não enlouquecer. Fui com medo, muito insegura, me sentindo culpada por deixar minha filha na escola em período integral, mas eu fui, aceitei a proposta de trabalho. Voltar ao trabalho me trouxe um respiro, mas também um turbilhão de sentimentos. Era libertador e doloroso ao mesmo tempo. Acho que se essa proposta de emprego chegasse depois do diagnóstico, provavelmente eu não teria aceitado. Teria renunciado à minha vida profissional para cuidar dela.

    Recentemente comecei ir à academia, depois de 5 anos entendi que o exercício ajuda mais a minha cabeça do que meu corpo. É uma forma de sair de casa também, para espairecer. Assisto um filme como se fosse uma série, demoro uma semana para concluir, e me sinto vitoriosa quando consigo terminar. Faço o mesmo com livros, tento ler pelo menos 10 minutos, nem sempre consigo, mas estou no caminho para isso.

    Aprendi a celebrar o que antes eu nem percebia. No meio dessa loucura que é a vida da mãe atípica, existem momentos de luz. Cada pequena conquista dela ou minha, eu vejo que estamos avançando, mesmo devagar.

    O que você fez por você hoje?

    uma mãe olhando pela janela, tranquila, tomando seu café, com um livro aberto
    Imagem ilustrativa gerada por IA

    Um filho sempre estará em primeiro lugar, sempre será prioridade, pelo menos pra mim, é assim que eu penso, mas, se você não começar a fazer algo por você, sempre ficará para depois e o tempo passa, não volta. Eu demorei 5 anos para entender que eu precisava de um tempo para mim, para cuidar de mim, espero que você não demore tanto tempo.

    Se você se identificou com o meu relato, não pense muito, se escolha, dê prioridade a você, fique bem para poder ajudar seu filho ou sua filha. Começar com pequenas coisas já farão diferença, tomar um banho mais demorado, ter 10 minutos de silêncio, comer sem pressa, fazer algo que te dê prazer como ver um filme, ler um livro ou fazer algum hobby. Tenha metas pequenas e que sejam possíveis de alcançar, pois dessa forma fica mais difícil desistir.

    Com a alta demanda na vida de uma mãe atípica, normalmente não começamos a fazer nada por nós, mas acho que devemos definir as prioridades, temos que começar a fazer e criar o hábito, depois as outras coisas se ajeitam.

    Além disso, acho que também é preciso ter esperança e reconhecer os pequenos avanços, ficar feliz por pequenas conquistas, sejam suas ou do seu filho.

    Ser mãe atípica é isso, é intenso, mas você também merece existir para além da maternidade. E precisa entender que isso não é egoísmo, é sobrevivência.

  • Maternidade Atípica - Relatos Pessoais

    O balanço dos 5 anos mais intensos da minha vida

    Minha filha fez aniversário recentemente. 5 anos! Como tempo passou rápido! Nem consigo acreditar. Tem horas que eu penso em tudo o que vivi com ela, nas alegrias e nos desafios, o quanto chorei, mas o quanto também sorri. Parece que minha vida só existiu depois dela, não consigo lembrar como era minha vida antes dela.

    O final de ano se aproxima e costumo fazer uma reflexão de como foi o ano e planejar o próximo ano. Então hoje eu quero refletir sobre esses 5 anos, porque foram intensos.

    Do nascimento aos 12 meses

    Sem dúvida foi o período mais difícil. Adaptação de todo lado, pra mim, para meu marido e até mesmo para minha filha.

    Com 15 dias, ela tinha perdido peso e o pediatra pediu para entrar com a fórmula, como complemento. Mamava no peito e depois eu dava a fórmula.

    Pra ajudar, ela não dormia desde que chegou do hospital, como já mencionei em post anteriores. Era muito agitada, não parava quieta. Nunca dormiu uma noite inteira nesse primeiro ano. E nem eu, estava muito mal, saúde mental não existia, me sentia um zumbi. Quando minha filha tinha 4 meses eu comecei fazer terapia e tenho certeza de que minha terapeuta me salvou.

    Nos primeiros 30 dias de banho foi só choro, depois parou, achava que nunca iria se acostumar. Não sei se já existia uma sensibilidade e eu não tinha conhecimento.

    Eu acompanhava o desenvolvimento dela por um app e teoricamente estava indo tudo bem: rolar, fazer a esfinge, sentar, engatinhar… com 1 ano estava dando seus primeiros passinhos, porém a fala estava devagar. Devagar não, travada mesmo, falava só mamã. Balbuciar palavras não existiu.

    Introdução alimentar foi terrível. Aceitava bem as frutas, mas comida… diversas tentativas de tudo que foi jeito e nada dava certo, até que comecei bater tudo no liquidificador, fazia umas papinhas bem nutritivas e assim foi por um bom tempo. Dizem que não pode comida liquidificada, mas era o que ela aceitava e cada um tem que fazer o que for melhor para seu filho, se adaptar como for possível.

    Eu mal conseguia me alimentar ou fazer algo em casa, era só o básico mesmo, porque minha filha não tirava cochilos, era coisa de 10 a 20 minutos, e era muito grudada em mim, queria a mamãe o tempo todo.

    Tudo isso em meio a pandemia. Nunca tive rede de apoio e ainda vivia uma época que mal podia sair de casa. Visitas eram raras, sempre da família do marido. Então não tive muito como observar o socializar, como agia com outras pessoas, porque ela sempre estava comigo.

    De 1 a 2 anos

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    Já estava enlouquecendo e resolvi colocar ela na escola, meio período, para poder fazer alguma coisa em casa (exceto descansar, isso nem pensar, não dava tempo) e também para ela poder ver outras crianças. A adaptação na escola foi boa, mas sempre muito apegada com a professora, o que muitas vezes comentavam isso comigo e diziam que eu dava muito colo (a culpa era minha hahahaha).

    Com 1 ano e 7 meses tirei ela do peito, ficou só com a fórmula. Claro que foi de uma forma bem gradual, diminuindo aos poucos, até que mamava só para dormir e depois tirei. Eu achava que o grude iriar acabar, que talvez ela era muito apegada por mamar no peito. Mas não, depois continuou tudo igual. Como já mencionei nesse post, autista são mais apegados a mãe.

    Depois de 6 meses, eu recebi uma oferta de emprego e aceitei. Fiquei com muito medo de colocar ela na escola o dia todo, mas eu pensava que era isso que o mundo fazia, alguns bebês já estavam na escolinha a partir dos 6 meses para que a mãe voltasse ao trabalho, então achava que não seria um problema. Errei! Mas até aí eu não tinha desconfiança que ela era autista.

    De certa forma foi bom pra minha saúde mental, para poder sair um pouco de casa, me sentir útil, porque eu só era mãe, em tempo integral, isso estava acabando comigo. Eu me sentia culpada de me sentir mal, pois eu amava e amo muito minha filha, não entendia por que eu não estava bem, não entendia que aquela rotina exaustiva me deixava mal. 

    Na escola em tempo integral: ela não comia bem, se isolava muito, não brincava com outras crianças, não dormia e ficava irritada muito fácil. E mesmo passando tudo isso na escola, chegava em casa e dormia tarde com muitos despertares noturnos.

    Minha preocupação começou a aumentar cada vez mais.

    Dos 2 aos 3 anos

    Também foi intenso. Começamos o ano com o início frustrado do desfralde na escola. Continuava sem falar, percebia que ela entendia tudo, porém não respondia nada, não tinha iniciativa, só apontava.

    Socialização ainda não existia, pelo contrário das outras crianças da mesma idade, ela sempre fugia de outras crianças.

    Dormindo tarde, dormindo mal, vários despertares noturnos e o neuro passou melatonina. Ajudava a induzir o sono, só isso, começou dormir mais cedo mas o resto continuou igual.

    Sem comer direito ainda. Frutas sempre foi bem, mas comida… chegamos em um ponto que só aceitava arroz e tomate.

    Comecei a buscar ajuda, já que o pediatra e neuropediatra diziam que estava tudo bem, que ela iria se desenvolver. O autismo feminino é diferente e acho que isso ajudou a atrasar o diagnóstico.

    Enfim passamos com a neuropsicóloga. Depois de 3 meses em um processo de avaliação e faltando alguns dias para ela completar 3 anos, a terrível notícia veio: sua filha é autista.

    Dos 3 aos 4 anos

    Marcado pelo início das terapias. As sessões eram com estagiárias, nunca conheci uma supervisora, não entendia nada então eu achava que tudo estava indo muito bem. Não sabia o que cobrar ou acompanhar. Resultado: muito estresse, muito choro, pouca evolução no desenvolvimento.

    Com o laudo em mãos, o neuro iniciou a medicação e suspendeu a melatonina. Finalmente dormiu uma noite inteira. E eu também! Os ajustes das doses da medicação eram frequentes, pois sempre voltavam os despertares noturnos. Colaborou com o sono, porém em seu comportamento tudo continuava igual. Eu na minha falta de conhecimento, achava que era assim mesmo, não tinha muito o que fazer. Mas estava errada.

    Muita coisa errada na escola, falta de preparo das pessoas da escola, falta de inclusão, de adaptação para lidar com minha filha, falta de empatia. Não via evolução na escola também, ela estava lá desde 1 ano e parecia que as coisas só pioravam, ela não me contava o que acontecia, mas percebia que ela não gostava da escola e de tudo que envolviam a escola.

    Comecei a me informar sobre o autismo, mas ainda de forma muito superficial, porém já era um começo.

    Dos 4 aos 5 anos

    Comprei alguns livros e cursos, mas não devorei o assunto, minha rotina ainda era muito cansativa, estressante, e eu não conseguia me dedicar tanto deveria. Mesmo assim, esse pouco me ajudou muito, abriu minha mente.

    Trocamos de clínica. Início de nova avaliação e início de sessões com terapeutas formados em uma clínica multidisciplinar. Fez toda a diferença. Ela chegou na clínica prestes a completar 4 anos, falava muito pouco, a frase dela tinha 2 palavras. Qualquer pergunta era respondida com uma palavra: sim ou não. Hoje com 5 anos eu vejo a diferença. Fala muita coisa errada que está sendo trabalhada com a fono, porém fala tudo, já consegue se expressar.

    Outra mudança muito importante foi a troca de escola. Fiz isso com muito medo, mas foi a melhor coisa que eu fiz. Tirei da escola particular, onde ficava integral e foi para uma escola da prefeitura por meio período. Diferença gritante, pessoas na escola preparadas para a inclusão, não só a professora. Desenvolvimento foi enorme, a escola a ajudou em tantas coisas, uma pena não ter trocado de escola antes.

    Com 4 anos achei que ela estava preparada para começar na natação e quase para completar 5 anos também iniciou o judô. Atividade física é muito importante. E ela ama!

    Meus planos para o próximo ano

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    Foram cinco anos intensos, desafiadores e transformadores. Agora entro no próximo ano com mais clareza e sabendo para onde ir.

    Esse novo ano será de continuidade: escola, terapias, atividades físicas e muito estudo da minha parte. Ser mãe de autista exige um aprendizado constante. Não espero que tudo seja fácil, mas espero estar mais preparada para lidar com o que vier.

    O que posso garantir é que vou continuar buscando o melhor para minha filha e para mim também!