• Maternidade Atípica - Relatos Pessoais

    Minha filha é autista. E agora?

    Minha cabeça deu um nó! O que é autismo exatamente? O que eu faço agora? Será que ela vai falar um dia? Será que vai se desenvolver? Terá amigas? Ela vai depender de mim pra sempre? Será feliz?

    O diagnóstico veio e com ele, essas e muitas outras dúvidas. Aqui vou contar como foi após receber o diagnóstico.

    Alívio depois do diagnóstico

    Depois que passa a fase do luto, você entende que receber o diagnóstico chega a ser um alívio, por incrível que pareça! Claro que ninguém fica feliz em descobrir que tem um filho autista, mas saber disso te ajuda a entender os comportamentos da criança e te direciona ao que deve ser feito, você não perde tempo tentando entender o que tem de errado, passa a ter foco, objetivo e vai em busca de como ajudar seu filho.

    Mesmo sem entender o que era o TEA, as primeiras coisas que eu fiz foram: agendei uma consulta com o neuro (liguei para o mesmo que já atendia minha filha) e liguei nas clínicas disponíveis no convênio para agendar as terapias.

    Isso eu tinha entendido: as terapias eram urgentes. Fico triste quando penso em quanto demorou para chegar ao diagnóstico, porque se eu tivesse encontrado profissionais mais preparados antes, que estivessem atentos às minhas queixas e preocupações, o laudo teria vindo mais cedo as terapias teriam começado bem antes.

    Consulta com o Neuro

    Imagem de freepik

    Com o laudo em mãos, fomos no neuro. Ela começou com esse neuro por indicação do pediatra, porque ela não dormia. Ele suspendeu a melatonina, que minha filha tomava devido a dificuldade com o sono, e receitou neuleptil.

    Minha pequena estava começando a tomar um remédio forte com apenas 3 anos, mas não me arrependo. Isso assustou, mas sabia que foi para o bem dela.

    Esse remédio fez minha filha dormir a noite toda. Ela acordava cedo, 6h já estava de pé e até hoje continua assim, mas foi uma benção na minha vida, porque finalmente, depois de alguns anos, EU pude dormir uma noite inteira.

    Confesso que eu nem hesitei em dar a medicação. Se você pesquisar vai encontrar muita gente contra medicação, principalmente quando a criança é muito nova. Há quem diga que a criança ficará dopada, perderá o brilho, que você não saberá como é a criança realmente… Enfim, eu não concordo com isso. O importante é ter o acompanhamento de um bom neuropediatra. E ele precisa ser acessível, assim como o pediatra. Em outro post vou contar sobre a importância de escolher um bom médico, como foi a troca do neuropediatra e a troca da medicação.

    As primeiras sessões de terapia

    Imagem de freepik

    Tanto o neuropediatra quanto a neuropsicóloga recomendaram 20 horas de terapias semanais. Vinte horas!!! Eu trabalhava, meu marido também, minha filha estava na escola, como assim ela tem que fazer tudo isso de terapias? Que horas? Ah! Esqueci de mencionar a receita básica do bolo: as terapias deveriam ser divididas entre fonoaudióloga, terapia ocupacional (TO) e psicóloga.

    Conseguir vaga é difícil porque quem começa a terapia não tem uma data para terminar, não surge uma vaga assim rápido, então quando você liga em alguma clínica e consegue um horário, fica feliz da vida. Eu fiquei! Não sabia como ia funcionar, se as terapeutas eram boas, se a clínica era boa… Eu não tinha nenhuma referência e muito menos conhecimento. Consegui as sessões em 2 clínicas, próximas de casa. Achei que estava tudo resolvido, agora era só levar ela nas terapias.

    Mas infelizmente não funciona desse jeito. E por um tempo eu achei que tinha encontrado a solução para os meus problemas. Minha filha estava na terapia e eu não precisava fazer mais nada. Tudo iria melhorar.

    Claro que não foi bem assim… No começo eu realmente achei que tudo estava indo bem, comecei a ver evolução da minha filha, mas depois de um tempo, quando comecei a entender um pouco mais sobre esse mundo que fui inserida, percebi muita coisa errada, começando pelas profissionais que atendiam minha filha, todas estagiárias e sem supervisão.

    Depois de 1 ano eu estava mais consciente e muito insatisfeita com o resultado das terapias, então troquei de clínica. Foi a melhor coisa que fiz.

    Conhecimento é poder

    Receber o diagnóstico foi horrível, porém libertador. Respondeu muitas perguntas, eu finalmente consegui entender tudo o que estava acontecendo com minha filha. A partir daí procurei tratamento e buscar sempre o melhor para ajudar em seu desenvolvimento. Além e buscar informação.

    Acredito que é muito diferente tudo o que vemos sobre o autismo e o que vivemos no autismo no dia a dia, por isso, nós, mães, temos que entender e sempre buscar conhecimento para poder ajudar nossas crianças da melhor maneira possível. Eu já assisti muitos vídeos, comprei alguns cursos, muitos livros e continuo na busca por informação.

    A falta de tempo em nossa rotina pesada, não deixa a gente se informar do jeito que seria o ideal. A mulher sempre tem muita coisa pra fazer, não existe descanso. Algumas vezes eu só quero dormir um pouquinho quando tem um “tempinho” disponível. Na verdade, eu adoraria assistir esse monte de séries e filmes disponíveis em tantos streamings que existem, mas eu priorizo me informar sobre o autismo e tudo o que envolve esse tema, mesmo que seja em doses homeopáticas.

    O conhecimento nos ajuda muito. Não basta levar a criança nas sessões e cruzar os braços esperando que um milagre aconteça. Não vai ser dessa forma. O que faz diferença é a informação. É preciso saber quando as sessões não estão rendendo, quando o médico ou os terapeutas não são bons o suficiente, entender o que eles falam, saber quando o remédio já não está mais ajudando ou se o efeito do remédio poderia ser melhor… tem tanto a aprender…

    E quem vai se informar? A mãe. Lógico!!!

    A jornada da maternidade atípica não é fácil, tem muitos altos e baixos, mas com conhecimento podemos ajudar nossos filhos e nos ajudar. Tenho a certeza de que estou fazendo o melhor que posso para minha filha e espero que você também esteja no mesmo caminho.

  • Autismo na Prática - Maternidade Atípica - Relatos Pessoais

    Recebendo o diagnóstico

    Um misto de sensações. A expectativa, ansiedade, medo, esperança (de ser apenas um atraso no desenvolvimento mesmo com tantos sinais que gritavam na nossa cara), tristeza, revolta e o sentimento de luto.

    Nesse post conto como foi o processo até receber o tão temido diagnóstico de autismo da minha filha.

    Quem pode dar o diagnóstico de autismo?

    Eu não sabia responder a essa pergunta. Naquela época ainda não existia o chatgpt, mas mesmo existindo o Google eu estava completamente perdida. O desespero tomou conta de mim, afinal minha filha já tinha mais de 2 anos e meio e eu não sabia nem quem procurar para poder me dizer o que acontecia com ela. Depois de atrasos na fala, dificuldades com o sono, na socialização e tantas outras coisas, resolvi procurar uma psicóloga infantil. Imaginei que ela me daria um norte, mas foi um engano, eu só perdi tempo com essa psicóloga. E dinheiro, pois a consulta era particular, não consegui no convênio, ou não tinha agenda ou só atendia a partir de uma determinada idade!

    Foram umas 3 seções só de anamnese e nada de começar as sessões com minha filha. No entanto, depois que começou o atendimento com minha filha, foram mais 3 meses de enrolação, até que eu e meu marido pressionamos a psicóloga. Afinal, precisávamos saber o que fazer, que rumo tomar.

    Depois de muita insistência da nossa parte, ela disse que a gente precisava de uma avaliação neuropsicológica para então chegar em um diagnóstico, ela não poderia dar esse o diagnóstico. Além disso, também disse que se minha filha fosse autista, seria “um grau bem leve“. Como se não fosse bobagem um grau bem leve (foram essas palavras que ela usou e já se usava níveis de suporte). Imagina ficar 3 meses pagando psicóloga particular, para depois ouvir que eu tinha que procurar outra profissional, sendo que desde o início eu já havia mencionado o que eu estava investigando. E isso só aconteceu por que insisti, mas e se não tivesse insistido?

    Nesse momento, eu já estava com a ansiedade a mil e até com raiva, pois ela deveria ter me indicado a neuropsicóloga desde o primeiro contato. Foi então nesse momento que a dispensamos. Focamos na avaliação neuropsicológica. E nunca mais falei com ela.

    Como foi a avaliação neuropsicológica

    Começou a busca por essa profissional. Falei com umas 5 neuropsicólogas tentando agendar horário, cada uma tinha uma particularidade que não daria para avaliar minha filha, até que cheguei em uma neuropsicóloga que ficava na cidade vizinha à minha e faria as sessões aos sábados. Questionei sobre as sessões, ela explicou que seriam testes padronizados, mas aplicados de forma lúdica, inclusive ela iria até a escola da minha filha, para observar e para a escola responder algumas perguntas. Os pais deveriam responder alguns questionários e algumas coisas nos questionários eram bem confusas, mas eu pedia exemplos para entender e ela me explicava pelo whatsapp, pois eu não respondia lá no consultório.

    A última sessão não aconteceu pois ela disse que não precisava. Nesse momento também descobri que ela não foi na escola da minha filha como havia prometido, apenas marcou uma chamada de vídeo com a coordenadora da escola, mas essa chamada também não aconteceu. Quando fui questionar o motivo, deu uma desculpa qualquer. Perguntei se isso não seria importante para ela compor o laudo, se não faria falta essa observação dela na escola e ela me enrolou com um papinho furado que fui obrigada a aceitar. Eu já estava ansiosa com todo o processo e triste com algumas atitudes da neuropsicóloga, mas respirei fundo e continuei, até mesmo porque entendi que não tinha muito o que eu poderia fazer àquela altura do processo. E assim, ela marcou o dia da devolutiva.

    O impacto emocional ao receber diagnóstico

    mulher preocupada com as mãos no rosto
    Imagem de Freepik – www.freepik.com

    Finalmente chegou o dia da devolutiva. Fui sozinha pois meu marido não poderia ir no dia agendado. Ao chegar, mal sentei e a neuropsicóloga foi friamente falando que minha filha realmente tinha TEA e, por não falar, automaticamente era nível 2 de suporte. Assim, na lata! Meus olhos encheram de lágrimas no mesmo instante, mas a frieza da profissional não me deixou derrubar uma lágrima. Ela disparou falar as coisas que aconteceram nas sessões de avaliação, que evidenciavam o autismo, nem consegui absorver muitas coisas que ela falava, tamanho foi o choque.

    Eu procurei a avaliação porque suspeitava do autismo, mas uma coisa é você suspeitar e ter a esperança de que poderia ser apenas alguns atrasos no desenvolvimento, outra coisa é receber o laudo assim tão seco, sem nenhum acolhimento, principalmente vindo de uma psicóloga que deveria entender o que é receber aquele laudo.

    Naquele momento, acho que eu só precisava de um abraço ou talvez um pouco mais de empatia.

    Então, ela continuou falando, que precisava iniciar as terapias imediatamente, que não podia esperar. Acho que foi a coisa mais sensata que ela falou, pois na minha cabeça eu já pensava em deixar para o ano seguinte, já que faltavam 2 meses para terminar o ano e parecia que eu tinha sido atropelada e precisava de um tempo para me recuperar. Eu estava muito atordoada com tudo aquilo.

    Além disso, uma das coisas que achei muito insensível foi quando ela disse que minha filha também teria alguns direitos por ser autista, mas a forma falada foi como se eu estivesse ganhado um prêmio. Por exemplo: ter desconto ou até mesmo isenção em parques como o parque da Mônica, vaga de estacionamento preferencial, isenção de imposto para comprar carro, entre outras coisas que naquele momento era totalmente irrelevante pra mim. Eu só queria sumir dali…

    Sobre direitos vamos falar futuramente também, porque as pessoas falam em direitos do autista de uma forma muito vaga, como se todos tivessem direito a tudo e na prática não funciona bem assim.

    Vivendo o luto após o diagnóstico

    Peguei o relatório como quem recebe uma sentença de morte. Saí do consultório e comecei a chorar pela rua, até chegar em casa.

    Não tinha mais chão, todos os meus sonhos, a vida que planejava ter com a minha filha, foram arrancados de mim. Sem dó e nem piedade!

    Eu não entendia por que aquilo estava acontecendo comigo, afinal eu me considero uma boa pessoa. Achava muito injusto estar vivendo aquilo (como se alguém merecesse, mas foi o que senti, a revolta era enorme). Senti uma tristeza tão grande, um sentimento que naquele dia eu não conseguia descrever e nem entender. Só perguntava a Deus: porque?

    Depois de um tempo, fui estudar sobre o autismo. Via as pessoas falando sobre o luto após receber o diagnóstico. Então eu entendi que realmente aquilo que estava sentindo era um luto. Quando você perde alguém muito próximo e querido, sabe que a pessoa não vai voltar e que sua vida não vai mais ser a mesma. Era assim que eu me sentia, o que não pude viver com minha filha não ia voltar, meus sonhos com ela, meus planos…

    E como seria dali em diante? Ela não vai falar? Ela vai depender de mim pra sempre?

    Como encontrei forças para recomeçar

    mulher olhando pela janela pensativa
    Foto de Vitaliy Shevchenko na Unsplash

    Eu ainda chorei sem parar por mais 2 semanas, todos os dias e várias vezes ao dia. Pedi para meu marido não falar nada para ninguém, pelo menos não naquele momento. Não conseguia e nem queria conversar sobre isso com ninguém.

    Eu precisava de um tempo para digerir tudo aquilo, mas a verdade é que não podemos nem parar para chorar, para respirar, tomar um fôlego. O tempo passa rápido, minha filha teve o diagnóstico com quase 3 anos, eu não poderia perder mais tempo. Na minha opinião, o laudo chegou tarde, já que eu identifiquei várias coisas erradas e ninguém me levou a sério.

    Mesmo estando em pedaços, emocionalmente destruída, peguei o telefone e saí ligando para as clínicas do convênio. Teria que conseguir as terapias, independente do horário. E assim eu estava recomeçando, recalculando a rota, fui obrigada a seguir em frente, não por escolha minha, mas simplesmente porque eu não tinha opção. E minha filha precisava de mim mais do que nunca.

    Nos próximos posts vou contar sobre as terapias, como foi a evolução, como foi com as primeiras profissionais que atenderam minha filha e como é atualmente, com outros profissionais em outra clínica.