• Autismo na Prática - Maternidade Atípica - Relatos Pessoais

    Sinais ignorados e sentimentos que não mentem

    No texto anterior, falei sobre os primeiros sinais que foram ignorados. Hoje quero compartilhar outras situações que também me deixaram em alerta.

    Muitas vezes, essas situações foram vistas como exagero da minha parte ou até mesmo birra da criança.

    Acredito que uma mãe sabe das coisas, ela sente quando algo não vai bem, percebe o que está acontecendo, conhece o filho e tem uma intuição poderosa. Aquilo que ninguém vê, com certeza a mãe sente. Coração de mãe não se engana!

    Desfralde antecipado e forçado na escola

    No segundo ano da minha filha na escola, quando ela estava com 2 anos e 2 meses, recebi a informação que iriam começar o desfralde de todas as crianças. Recado foi direto, simplesmente pedindo roupas extras e que os pais deveriam continuar com o desfralde em casa para não atrapalhar o trabalho deles. Confesso que me assustei! Minha filha nem falava, achava ela ainda tão bebezinha, não sentia que ela estava pronta para essa nova etapa. Por outro lado, eu pensei: a escola tem experiência com isso, quantas crianças já não desfraldaram? Deve estar na hora mesmo. E quem sou, sem experiência com isso e mãe de primeira viagem, para achar que é muito cedo?

    Como resultado: em 2 semanas as crianças estavam desfraldadas. Exceto a minha criança e um coleguinha da turma (que mais tarde eu descobri que já tinha o diagnóstico de autismo). Isso criou uma frustação tão grande em mim! Imagino como não deve ter sido horrível e traumático para minha filha, sendo forçada a algo que ela nem devia estar entendendo.

    Esse desfralde ainda levou mais de um ano para acontecer. Foi um processo lento, gradativo, não virou a chave da noite para o dia. E já adianto: não existe fórmula mágica. A criança tem que estar pronta, madura pra isso. Não foi nenhuma técnica milagrosa que resolveu o problema de uma hora pra outra (eu tentei muita coisa, claro que ajudou, mas como eu disse, não é mágico). Simplesmente aconteceu quando ela estava preparada.

    Quanto ao desfralde noturno, infelizmente ainda não aconteceu, com quase 5 anos, ainda coloco a fralda para ela dormir, porém, sem estresse, eu aprendi a respeitar o tempo dela. E tá tudo bem que o filho do vizinho com 2 anos não usa mais fralda e vai no banheiro de noite sozinho. Um dia minha filha também vai fazer isso!

    Apego excessivo

    Mulher sorrindo e abrançando sua filha
    Imagem de Freepik – www.freepik.com

    Entendo que minha filha nasceu na época da pandemia, que não tinha contato com outras pessoas e nem crianças até entrar na escola, mas, a questão é que eu achava exagerado o grude dela comigo. Não que eu não gostasse, pelo contrário, apenas não entendia esse apego excessivo. Tudo era comigo. Sempre! Pensando bem, é assim até hoje. Certa vez ouvi de uma amiga: menina se apega com o pai, quando ela tiver 2 anos nem vai ligar para você. Até hoje isso não mudou, ela me demanda demais, um grude que eu nunca vi igual.

    Dizem que um dos sinais do autismo é a criança não gostar de toque, de abraço, de beijo. Isso não é verdade. Cada criança é única e realmente tem muitas crianças autistas que podem se sentir desconfortáveis ao contato físico, mas não é uma regra. Graças a Deus não posso reclamar quanto à isso, pois eu sempre beijo e abraço muito a minha filha, ela adora e retribui da mesma forma.

    A criança autista é muito mais apegada, eu não sabia disso e acredito que muita gente também não saiba. Hoje, com o passar do tempo e tudo o que já aprendi, consigo entender que o colo é um abrigo, um porto seguro para a criança, ela não está me manipulando. A criança se sente segura com a mãe, então eu prefiro dar esse colo, dou essa segurança que ela precisa. Por exemplo, muitas vezes estou longe dela, cozinhando ou limpando a casa, e ela chega pedindo um abraço e colo. Por que eu negaria?

    Problemas gastrointestinais persistentes

    Desde bebê minha filha tinha constipação, era um sofrimento. Por esse motivo, troquei de fórmula algumas vezes e tentava dar frutas laxantes, mas nada ajudava. Para piorar, ela não gostava de beber água e ainda tinha a seletividade alimentar. Claro que eu sabia que tudo isso interferia, que não ajudava a melhorar a situação, mas realmente não conseguia fazer muita coisa para mudar essa situação.

    Agora imagina passar por tudo isso com uma criança que não falava. Que não conseguia dizer o que sentia, onde doía, o que incomodava. Eu não sabia o que era pior: ela não dormir (e eu junto) ou ela não falar.

    O problema era recorrente, então o pediatra orientou que procurasse um gastroenterologista infantil, pois ela já estava tomando laxante e iria precisar de acompanhamento. Apesar de ter convênio, eu não conseguia agendar uma consulta, pois teria que aguardar no mínimo 1 mês para a consulta mais próxima. No desespero a gente faz qualquer coisa para ajudar nossos filhos, eu não iria deixar minha filha mais 1 mês sofrendo com dores. Então, fui no google e encontrei uma médica particular com boa avaliação. A consulta era bem cara, mas pelo menos nos atendeu na mesma semana. E assim foram quase 2 anos pagando consulta particular (e ela tomando laxante) para amenizar esse problema.

    Depois do diagnóstico, quando fui estudar mais sobre o autismo, vi que os distúrbios gastrointestinais estão entre as condições médicas mais comuns associadas ao autismo.

    Muitos outros pequenos sinais que não enxerguei

    Existiam ainda diversos sinais, que podiam ser sutis, como por exemplo: sensibilidade à luz, sensibilidade a alguns sons e muito barulho, sentar em w, comportamentos que pareciam apenas que ela estava distraída pois não prestava atenção em muitas coisas, comportamentos que pareciam teimosia mas para muitas pessoas era birra (na verdade não era), estresse em pequenas e simples mudanças de rotinas, corridas em círculos ou pular sem parar, escaladas pelos móveis, além de comportamentos sistemáticos e repetitivos. Na época não entendi nada disso, nenhum desses sinais.

    Esses sinais podem parecer sutis ou até simples, mas quando se tornam frequentes ou intensos, formam um padrão. Muitos deles são comuns em crianças autistas e merecem ser observados.

    Um quebra cabeça

    Depois de receber o laudo, fui estudar sobre o autismo, e finalmente entendi tudo o que estava acontecendo. Mas até isso acontecer… eu sofri bastante e, consequentemente minha filha também.

    A verdade é que, tirando pessoas da área de saúde ou de educação, acredito que quase ninguém procura entender o que é o autismo. Até que ele apareça na sua vida.

    Como muita gente que está fora desse mundo atípico, eu tinha um conhecimento muito superficial sobre o autismo. Por isso, todos esses sinais que descrevi não foram suficientes para que eu tivesse a certeza de que se tratava de autismo.

    Hoje eu vejo que todas as peças desse quebra cabeça estavam ali, só faltava montar.

    Nos próximos posts, quero compartilhar como foi o processo de diagnóstico e os primeiros passos depois do laudo. Porque entender o que está acontecendo muda tudo.